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sábado, 5 de julho de 2014

Aspirantes


Num Gol 1.6 com motor refrigerado a ar idêntico a esse aí de cima eu me sentia bem, ergonomicamente falando, depois de ter dado uma das minhas famosas mega porradas de moto. O critério da escolha não foi pelo desempenho mas sim pela facilidade de acesso, disposição dos comandos e conformação do banco do motorista.

Mas o tempo passou, eu sarei e o Jornal da Tarde publicou uma matéria mega interessante no caderno de esportes. O Expedito Marazzi, dono do Curso Marazzi de Pilotagem, ia promover corridas para alunos e ex-alunos com carros de rua sem modificações tendo motores de até 1.800 cc.

Telefonei pra ele pra confirmar isso e era verdade. Resumindo, eu ia correr com meu Gol contra carros bem mais potentes.

Mas eu não me lembro muito bem dessa primeira corrida na categoria Aspirantes, a não ser que a largada foi montada a critério do Expedito, e ele me botou lá atrás do grid, além do vigésimo lugar, que a corrida terminou já sem luz do sol, que eu passei gente pra caramba de qualquer jeito e que terminei em oitavo lugar. Perguntei ao jornalista, brother, ex-instrutor do Curso Marazzi e mega boa gente Claudio Reis se lembrava de alguma coisa sobre essa corrida e...

Ele conta:

Claro que lembro…hehehe

Aquela prova era meio maluca. Era a primeira prova de Aspirantes da história, uma categoria que acabou redundando na Turismo N, que não existia. A ideia foi minha, do Julinho e do Milton Vieira (os três instrutores de então) e do Marazzi.

Os carros eram de rua, sem santo-antonio e qualquer ítem de segurança. Eram admitidos quaisquer carros, até 2 litros e os drivers eram (quase) todos alunos do Curso Marazzi de Pilotagem. O “quase” ficou por minha conta, que entrei de bicão no grid, com meu Voyage 1.6.

Fiquei com a pole, ladeado por um Monza 2.0 Fase 2 zerinho, do Albert Nokleber – que era ex-socio do Ney Faustini -. Depois da largada caí para terceiro, atrás do Monza zerinho (e indisfarçavelmente “mexido”) e de um Escort XR3, que não lembro de quem era. Algumas voltas depois já colocávamos uma volta no pelotão da merda. Foi ai que vi, na saída da Curva 2, um Golzinho doido que vinha fazendo diabruras e fechando todo mundo. Era um cara que era a fuça do Ayrton Senna, um dos novos alunos com quem simpatizara de cara, pois era bom de papo e meio maluco…

Na passagem fiz sinal para colar no meu carro e vir no vácuo. O Golzinho veio na bota por um tempo, mas, claro, não conseguiu acompanhar.

O tal do Nokleber queria vencer a todo custo – ele tinha uma certa desavença com o Faustini e queria mostrar que também era bom piloto – e forçava muito. Acabou errando na entrada da Curva do Sol e saiu capotando varias vezes para a parte de dentro da pista. Como eu estava lá de inxerido (e já tinha corrido na Hot Car com meu Opala), freei forte e parei para socorrer o cara. Naquele tempo não tinha JP Salva e serviço médico. Como os carros não tinham santo-antonio ne preocupei e resolvi socorrer o cara. A capota virou uma pizza e colou no alto da folha de porta… Só tinha um espacinho de nada, onde vi o cara lá dentro. Consegui abrir a porta e tirar o “Betão” de lá, coloquei no meu carro e levei para os boxes…

Claro, o Ambulatório estava fechado com corrente e cadeado! Limpei as feridas do cara com álcool do meu tanque de combustível. Sorte que era pouca coisa. A corrida acabou e não vi quem ganhou. Acho que foi outro Monza, de um tal de Eduardo. De repente entrou um cara correndo no meu box, com uma baita galera atrás dele e se escondeu atrás de mim, pedindo para eu ajudar e não baterem nele…hahaha Era o piloto do Golzinho a ar, que tinha esbanjado trancadas na pista… Lembra disso?

Sim, Claudio. Lembro disso e sou eternamente grato. Esse Golzinho a ar foi devidamente preparado e chegou a ganhar uma corrida, mais adiante. E depois ainda quase matei meu primo.



domingo, 16 de fevereiro de 2014

Curso Marazzi de Pilotagem




Fotos roubadas na página do Expedito Marazzi, no Facebook. Alguém deve estar botando essas fotos lá. Jamais o Expedito perderia tempo com isso. Se fosse pra matar um tempinho, era desse jeito:


sexta-feira, 17 de maio de 2013

Smoked


Não sabia disso, ou, do fato desse cara fumar cigarros durante corridas. Tudo bem que corridas em pistas ovais nos EUA tem muitas interrupções por bandeiras amarelas e dá pra carburar um Marlboro sossegadamente. 

A lebre foi levantada porque Dick Trickle se matou com um tiro na cabeça. 

Hum...

Não quero julgar ninguém, mas um cara com um nome desses devia ter outros hábitos condenáveis por carolas protestantes. Devia jogar, beber e ter namoradas de aluguel, também. Batata. 

Deve ter tido uma vida feliz...

Soube do fato no blog do Flavio Gomes.

Tinha mais gente que fumava ao pilotar. Isso cá no Brasil, em Interlagos, já que dava tempo de dar umas boas bolas da saída da Junção até a freada da Três. Fazer a Um e a Dois com uma mão só não era complicado, em ritmo de corrida longa. Desconfio que Ciro Cayres e Camilo Christófaro mandavam bala em Ministers, Hollywoods e Continentais. 

E eu mesmo tocava fogo nuns Marlboros durante instrução pros alunos do curso de pilotagem.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Páteo do Marazzi, o filme


Renzo "Alma Selvagem" Querzoli fez um filme durante o encontro do Gabriel Marazzi. E ele, o Gabriel, explica como funciona a coisa toda.

Só digo uma coisa: funciona, o encontro. O filme, que não consegui postar, tá nesse link aqui.




domingo, 3 de fevereiro de 2013

Páteo do Marazzi

Na verdade não é páteo e sim um colégio. Salesiano, o colégio. Lugar bacana. Motos, carros e gentes legais. Vou no próximo, certamente.

Alá:




Plataforma VW a ar, rodas de 4 parafusos, distância entre eixos original.

Mais fotos aqui.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Curso Marazzi de Pilotagem

Não é lenda. Fiz mesmo. E gostei tanto que em vez das 5 aulas regulamentares fiz umas 30 ou mais.

Alá o certificado:

terça-feira, 22 de maio de 2012

147, 1050


Os bonitões da foto (Tite no comando do obturador, sempre) são meu Fiat 147 azul tirreno, eu e minha espingarda de pressão.

A vez hoje é desse 147, sempre aparentemente sujo e mal cuidado mas extremamente bem acertado e sempre pronto pra estrepolias em pistas de corrida ou fora.

Corria o ano de 1979 e um amigo meu iria participar do Campeonato Brasileiro de Viaturas de Turismo na categoria Divisão Um, Classe A, para carros de até 1.300 cc. Não preciso dizer que à época só tinha fusca e Fiat aptos a participar.

Fusca 1300? Pffff....

147, então.

Esse 147 azul tirreno sempre foi um carro divertido. Divertido primeiro porque era novidade à época. Ainda mais porque era extremamente simples, a sua mecânica. Tanto, que eu fazia os acertos necessários em casa mesmo: altura da frente, bastava tirar os telescópicos e levar alí na oficina da esquina pra tirar as molas. Daí a serrar uns elos era coisa simples. De volta pra deixar o mecânico montar as torres, e remontar em casa mesmo a suspensão. A traseira era ridiculamente mais fácil de mexer: bastava aumentar os calços em cada ponta do feixe de molas transversal.

Motor então, nem se fala. Como era novidade, os preparadores sérios ainda estavam tateando no acerto, o que era uma vantagem pra quem não tinha lá muita muito equipamento (e vá lá, conhecimento técnico). Descobrí logo como fazer o pequeno motorzinho ganhar mais algumas rpm e mais força com ajustes simples no carburador, com uma outra curva de avanço no distribuidor (e um tantinho mais de dwell, ou, tempo de carga da bobina) e um escapamento sem nenhum tipo de silenciador.

Andava super bem, o carrinho.

Fiz também umas mudanças dentro do carro. Botei bancos mais baixos na frente e conseguí "desinclinar" a coluna de direção, deixando o cockpit mais parecido com o de carros alemães, exceção feita à Kombi, à qual se assemelhava o posto di guida do pequeno Fiat.

No mais, um bom contagiros instalado na capa da coluna de direção (quase tapando os dois mostradores originais), e pneus outlaw Pirelli CN36 5 estrelas na medida 165/70R13.

Suficiente pra garantir muita diversão em Interlagos.

Nessa época tinha bastante gente preparando os pequenos Fiats pra participar de corridas, como eu disse. O meu amigo lá de cima era um. E o Expedito Marazzi era outro. 

O Fiat vermelho do Expedito já estava caracterizado como carro de corridas com o rollcage instalado e com números pintados na carroceria. O meu azul tirreno, não. Afinal, era usado pra me levar pra faculdade, pra viagens e também para levar os instrumentos de meus amigos rockeiros pra onde quer que eles fossem (cabe bastante coisa dentro de um 147 se rebatido o banco traseiro e retirado o dianteiro direito).

Numa dessas mágicas tardes de quarta-feira, durante uma das aulas do Curso Marazzi de Pilotagem, eu estava nos boxes vendo o Expedito andar com seu 147 vermelho. Meu amigo que ia correr, também. Só que, como já disse, seu 147 cinza ainda estava sendo montado.

Ficamos então imaginando qual dos 147 seria melhor. O azul tirreno, "preparado" em casa por mim mesmo, ou o vermelho, já com jeitão de carro de corrida.

Não se fazendo de rogado, meu amigo catou meu 147, sempre pronto pra mostrar serviço, e foi à caça do Expedito.

He he he...

Azul tirreno wins. Era quase um segundo por volta mais rápido que o racer do Expedito.

Claro que a explicação pra isso era o fato de vários preparadores ainda estarem tateando no acerto dos carros, como foi o caso do carro do Expedito nesse dia, e as modificações que eu fiz eram sutís, sem a intenção de explorar o máximo potencial do carro e naquele dia específico, mais eficazes.


sexta-feira, 20 de abril de 2012

Expedito, 1985

Atirei no que vi, acertei no que não vi. Ainda bem. Achei esse video incrível de uma matéria feita pelo Reginaldo Leme sobre Formula 1, cujo enfoque foi o acesso à carreira de piloto.

E...

Adivinha em qual curso de pilotagem ele foi gravar?

Ele mesmo: Curso Marazzi de Pilotagem, sob o comando do Expedito.

Demais!

De quebra, imagens de um Formula Vê daqueles de 1974/1975, que eram verdadeiros foguetes.

Alá:



terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Como matar um primo

Fuçando nas minhas gavetas acabei achando os cromos de uma das primeiras corridas que fiz na categoria Aspirantes.

Algum tempo depois de ter terminado o curso de pilotagem lí num jornal (Jornal da Tarde, provavelmente, que era o único que veiculava matérias sobre automobilismo constantemente) que o Expedito ia promover provas para alunos e ex-alunos do curso que ainda não tivessem participado de corridas.

Tô nessa, claro!


Fiz algumas corridas com um Gol LS 1.6 1983 que eu tinha, daqueles ainda com motor VW a ar. Andava bem mas faltava uma coisa: mais HPs.

Por causa disso de vez em quando roubava o carro da minha mãe, um Escort L 1984.

Este aqui:


Esse foi o primeiro roubo que fiz do carro. Uma desculpa qualquer, álcool no tanque e a ótima lazagna de domingo era facilmente deixada de lado.

O grid não era estonteantemente grande, mas entre 12 e 20 aspirantes a piloto sempre marcavam ponto nas corridas. Era sempre a última escalada para o domingo. E ficava gente pra ver! Afinal corriam carrões da época e a chance de vê-los se estabacando era sempre grande.

Panis et circencis.

O circensis a gente garantia pra quem assistia.

Maior ainda era a diversão pra quem participava, for sure. Era muito legal andar com os pneus radiais da época (esse Escort usava pneus 165/80R13 - altos, estreitos e flexíveis) com 40 ou mais libras. Podia fazer sol ou chover que o grip era praticamente o mesmo, ou seja, quase nenhum.

A Ford sempre primou pelo acerto das suspensões voltado para conforto e não para desempenho. A combinação de uma suspensão bem macia com um motor que tinha torque suficiente para o peso do carro e mais a boa penetração aerodinâmica dessa carroceria porporcionava muita diversão.

Era extremamente legal andar escorregando em qualquer curva.

Se o baricentro do carro estiver no traçado, o resto que se f...

Eu arrancava risadas do Expedito com essa frase. E era isso mesmo! Não tinha como fazer a longa curva do Sol numa virada só do volante, como ele nos ensinava. Ora a frente escapava, ora a traseira queria sair. Mas eu deixava o centro de massa do carro rigorosamente no traçado certo, embarrigando no meio e não tocando a zebra interna na tangência da segunda perna como tinha que ser.

Alá que legal a largada. Na pole, o Leo e seu TS preto lindo de morrer. Atrás da gente dois Gol GT. Podia andar qualquer carro de rua com motor de até 1800 cc. Mas pra alguns, 1600 cc tava de ótimo tamanho:


Aqui a gente tá fazendo a Ferradura na primeira volta. Na minha frente um Gol GT e um Passat TS. Atrás, um fusca. Não lembro desse fusca mas não durou muito tempo perto da gente:


Não precisava de macacão. Só no ano seguinte é que nos obrigaram a usar o gear completo. Bermuda não podia, o que eu lamentava muito, porque tava sempre quente dentro do carro com os vidros fechados e ventilação desligada. Mas bastava a vontade de acelerar, só. Esse capacete aí foi pintado pelo Sid Mosca, que ainda não era tão famoso. O desenho é meu mesmo. Infelizmente foi inutilizado num acidente de moto. 

Quase que eu fui inutilizado também.


Essa corrida foi bem legal porque eu e o Leo (o cara do Passat TS preto lindo) conseguimos despachar os Gol GT logo de cara e pudemos trocar de posição várias vezes sem a preocupação de perder os dois primeiros lugares pra algum outsider.

Alá como foi:


Depois de algumas experiências com o Gol LS, que era ótimo de chão mas o motor "acabava" logo na saída da curva 2 e descia os 800 metros do retão sem crescer uma única rpm que fosse se não pegasse o vácuo de alguém, fiquei maravilhado com a velocidade que o Escort alcançava no fim do retão. Passava um pouco dos 180 km/h em quinta marcha, contra 145 km/h do Gol. Só que essa era a única vantagem que ele tinha em relação ao Passat TS preto (lindo, do Leo) e ao meu valente LS branco. As freadas eram críticas e o contorno de curva não era como o do Passat, bem mais fácil de pilotar.


Ora o Leo ia na frente, ora eu. A grande vantagem do TS preto era a entrada da 3. Ele tinha só quatro marchas e o Leo não precisava reduzir. Bastava frear. Eu, com o não muito preciso câmbio de 5 marchas do Escort (opcional, à época), tinha que me preocupar em acertar o engate da quarta marcha enquanto freava forte segurando o volante com uma mão só e tentando deixar o carro em linha reta. Os GrandPrix S eram péssimos em freada, principalmente. Lá o Leo abria um pouco de mim ou tirava a pífia vantagem que eu conseguia no retão graças à 5ª marcha que eu tinha e ele não e graças à boa aerodinâmica do Escort.

Até que na última volta, na freada do S (na pista de oito quilometros não tinha S do Senna. Só o de verdade)...


...tentei passar o Leo por fora mesmo. Não tinha muito problema fazer isso porque a próxima curva, o Pinheirinho, é pro lado contrário e eu estaria por dentro. Só que essa freada teria que ser feita no limite extremo da aderência dos horríveis GoodYear Grand Prix S 165/80R13. E o Leo me "ajudou" a pisar com duas rodas na grama durante a freada.

Deu no que deu. 

Quase matei o Tite, meu primo, que fez essas fotos. Nesse momento ele tava na entrada do S, na beira da pista. Durante a cagada freada olho pra frente e vejo o cara com a cam apontada pra mim. De um lado do rosto, a Pentax chiquérrima que ele tinha. Do outro, um ovo frito enorme.

He he he...

Todos sobreviveram sem maiores danos (o Tite, a Pentax, o Escort da minha mãe e eu).


No pódio, o Leo em primeiro, eu em segundo e os donos dos Gol GT (com cara de bunda) em 3° e 4°. Nessa época eu tinha pouco cabelo e nenhuma barriga. 

Infelizmente a situação se inverteu. 

Nessa época eu ainda não tinha a fama injusta que tenho hoje.

O troféu é esse aqui:


Minha mãe, filha do meu avô que gostava muito de carros, motos, oficinas mecânicas e de mim, sempre sabia o que tinha acontecido com o Escort dela no domingo por maior que fosse a mentira deslavada (mas sempre criativa) que eu desse. Os pneus arrepiados denunciavam a sarrafada tomada na pista.


Invadindo!

Lá por 1976 ou 1977 eu já tinha carro a algum tempo. Já devia estar no segundo carro, acho. O primeiro foi, claro, um fusca. Logo em seguida um desse aqui:


Mais um furto. Espero que o dono da foto não fique chateado. 
Meu Passat não tinha essas rodas horríveis nem garras nos
parachoques e vivia sujo.

Era com esse Passat que eu ia para Interlagos ver corridas nos fins de semana. E ficava por lá até bastante tempo depois de terminada a última corrida. Os boxes iam esvaziando, a saída do pit lane pra pista era fechada, os três (se tanto) vigias iam sei lá pra onde e...

Ficávamos eu e o Passat, só.

Entrar na pista era simples. Bastava botar o carro no pit lane e andar na contramão até a saída da pista (e entrada dos boxes, no lugar onde está hoje. Essa entrada mudou de lugar algumas vezes).

Motor ligado, primeira engatada e eu ia bem devagar até a entrada dos boxes. Virava à esquerda e... tava na pista.

Andava lá até escurecer ou até me tirarem, o que acontecesse antes.

Ao contrário da maioria dos meus amigos, meu carro não era rebaixado, não tinha escapamento barulhento e nem era lavado e polido à exaustão. Chamava menos atenção desse jeito.

A sequência das curvas eu já sabia desde pequeno, claro, porque devorava tudo que fosse publicado sobre corrida de carro. Não demorei pra pegar o traçado e foi até fácil achá-lo. Como entrava na pista imediatamente depois de um dia inteiro de corridas, o chão ficava bem marcado pela borracha dos pneus e pelos líquidos que vazavam dos carros. Andando na parte escura da pista a chance de acertar o traçado é bem alta. Mas eu tinha poucas voltas pra acertar as freadas e achar os pontos ideais pra trocar de marcha (especialmente no contorno e saída da difícil curva do Lago).

Fui ficando conhecido pelos vigias, claro, à medida que ia sendo pego em flagrante debulhando o Passat vermelho málaga. Me pegaram tantas vezes que achei melhor procurar um curso de pilotagem pra fazer.

Gostei tanto disso que acabei virando instrutor de pilotagem.





terça-feira, 15 de novembro de 2011

Flat out

Interlagos é uma pista legal. Bem exigente mas bastante segura tirando o setor do Café onde costuma morrer gente de vez em quando.

Só detalhe.

Corridas de carro são perigosas.

Mas Interlagos foi uma pista maravilhosa, já. De impor respeito em quem ia guiar lá. Tinha curvas de alta, o que já não tem mais.

O Expedito Marazzi classificava as curvas pela velocidade: baixa, até 100 km/h, média, entre 100 e 150 km/h e de alta velocidade, acima de 150 km/h.

A 1, a 2, o Sol e o Café eram de alta. O Café nem tanto porque era (ainda é) apenas uma reta torta.

As de alta eram foda. No seco, tudo bem. Fáceis de fazer flat out (pé pregado no assoalho, borboletas dos carburadores completamente abertas).

Mas na chuva...

Eu fui instrutor do Curso Marazzi de Pilotagem por muito tempo e gostava bastante de fazer isso. Sempre tinha alguma coisa a aprender com o Expedito. Fosse de corrida ou de vida. Era ótimo passar a tarde conversando com ele.

Numa quarta-feira chuvosa deixei meu Gol 1600 racer em casa e fui com um outro, igual mas não modificado pra enfrentar corridas.

Ninguém na pista. A chuva era forte. Bem paulista.

Na conversa agradável de sempre com o Expedito perguntei se era possível fazer a 1 flat de Gol 1600.

"Cadê teu carro?"

"Tá lá. Toma a chave."

A gente tinha isso em comum apesar da grande diferença de idade: a extrema falta de juízo. Não que fossemos completos idiotas, mas confiávamos ambos nos nossos respectivos tacos. Mas o Expedito tinha mais hora de vôo. Bem mais.

"Vou andar só no externo pra não perder muito tempo com isso."

"Faz como quiser, Expedito."

Todo mundo foi pra beira da pista na frente do último box (o mais perto da entrada da 1) pra ver o carro passando e principalmente escutar o motor. A gente sabe quando o piloto alivia o pé do acelerador mesmo que só um pouquinho. O ruído na altura dos filtros de ar diminui um pouco.

Na primeira passada, uma tiradona de pé. Já tinha gente querendo fazer aposta em grana. A chuva tava forte ainda.

Na segunda, uma tiradinha bem na hora de inserir o carro na trajetória, deslocando o peso pra frente e deixando a traseira solta. Do lugar que eu tava dava pra ver o Expedito virando suavemente a direção.

Ele sabia guiar.

Na terceira, quando deu pra ver a frente empinada do Gol 1600 passando pela linha de chegada, foquei no barulho dos carburadores. Naquele ponto da pista o Gol já vinha bem perto da sua velocidade máxima, com os dois Solex 32 engolindo bastante ar e fazendo um barulho maravilhoso.

Carburadores fazem um barulho lindo. Mesmo!

O Gol deslizou suavemente pra dentro da 1.

O barulho do motor não mudou até a saída da 2.

Missão cumprida. Dava pra fazer flat a 1 e a 2 com aquela quantidade de água.

Um minutinho depois entram no box o Gol e o Expedito. O Expedito com um sorrisão de orelha a orelha.

Típico dele.

"Dá sim!"

"Legal!"

Tinha uns quatro alunos e eu, lá. Todo mundo foi pra pista fazer a 1 flat.

Não sei (na verdade não lembro) se eles conseguiram.

Eu consegui. Várias vezes.

Mas é a mesma coisa que entrar correndo com os pés molhados num ambiente com o chão revestido de cerâmica ou madeira polida e encerada. Uma pequena bobeada e o escorregão é certo.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Pra começar

Pra começar, tomo a liberdade de roubar um texto publicado no blog do meu amigo Gabriel Marazzi que fala um pouco da minha enorme paixão por corridas (mudei alguma coisa aqui e ali, mas o texto é meu mesmo...):

"Dia desses, surfando na internet, me deparei com um post num blog de fanáticos que tinha a ver com carros que de alguma forma capturam ou capturaram nossa atenção. O título do post era Eye Catcher, acho.

Eu já comprava as revistas Quatro Rodas e Auto Esporte desde muito cedo e viajava nas bonitas formas aerodinâmicas dos carros de corrida de então. Já conhecia a maioria dos carros por nome e já tinha decorado suas fichas técnicas. Carros, especialmente os de corrida, já ocupavam grande parte da minha vida. Tanto assim que tentei convencer minha professora do 2° ano primário a trocar seu VW Sedan 1200 por um carro projetado por mim, baseado no Mildren Alfa que competia na Copa da Tasmânia.

Lembrei então da primeira vez em que fui levado pelo meu pai a Interlagos. Foi em 1970, na Copa Brasil, que aconteceu na onda da primeira invasão brasileira bem sucedida nas pistas européias. Vários protótipos e carros GT europeus vieram medir forças com a nata do automobilismo brasileiro da época. Uma Ferrari 512S vermelhíssima passou pela reta dos boxes no exato instante em que nos preparávamos, eu e meu pai, para subir a escada da arquibancada logo em frente. Em quinta marcha, a caminho da curva Um, muito acima dos 200 km/h e deixando um rastro de borracha, sinal de que o V12 naquele ponto da pista ainda tinha muito a empurrar.

A 512S vindo em minha direção com o barulho agudo do motor e do vento contornando sua carenagem se tornando cada vez mais altos, a explosão ao passar bem diante do meu nariz e se tornando mais grave por conta do efeito Doppler enquanto se afastava na direção da curva Um capturou minha alma para sempre.

Um dia eu tinha que guiar um carro naquele mesmo lugar."

É. Passou um tempão e a febre não arrefeceu. Continuo extremamente ligado em corrida de carro e kart. "Ajuda" muito o fato de ter vários amigos que também gostam disso.