quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

3.000 rpm


O título deste post tem um motivo: conheço gente que não deixa os motores de seus carros passarem dessa velocidade angular em hipótese alguma.

"O motor explode".

Não tenho mais paciência pra argumentar quando ouço uma besteira desse quilate. Nem toco mais nesse assunto. Se for o caso, agradeço a carona (de um tempo pra cá tenho usado muito esse meio de transporte) e peço pra descer.

Hoje, no ótimo AutoEntusiastas, me deparo com esse delicioso texto do Arnaldo Keller, o qual reproduzo na íntegra:

"Acelera aí, rapaz!


— Acelera! Vamos! Acelera até o talo e agüenta a mão! 

Estou acostumado a dizer isso. Estou acostumado a ficar insistindo para que não tenham medo e pisem no acelerador até bater na tábua. A expressão “pé na tábua”, por sinal, vem do tempo em que a parede de fogo não protegia contra fogo nenhum porque era feita de tábua. Era assim em carros até o começo da década de 1930, então quando o sujeito acelerava tudo batia o pé nessa tábua. É legal escutar esse barulho “toc” de bater o pé na tábua. Fica claro que a coisa está no talo.

— Pé na tábua, então! Acelera tudo, caramba! Está com medo de quê? Está tudo livre e só estamos em 2ª marcha! Em 2ª esse carro não passa de uns oitenta! Então, vamos! Acelera aí!

Com carro carburado não é essa moleza de acelerar os carros modernos, com injeção eletrônica, acelerador eletrônico, monitores de nossos atos ao volante. Com os carros modernos, se você quiser arrancar o mais forte possível, basta acelerar direto ao talo que a programação do acelerador faz a coisa certa, dosa da melhor maneira e vai acelerando na mais rápida progressão possível, mas com carburado não é assim, não, pois com eles, estando em giro baixo, meter o pé direto ao talo muitas vezes é contra-producente, o motor engasga, pois a mistura ar-combustível sai errada, muito ar para pouco combustível, dá falta e em vez dele acelerar ele empaca. 
Então, em carro carburado – principalmente os mexidos, com comando bravo – para acelerar o mais forte possível a gente mesmo tem que dosar, tem que sentir na base da sintonia fina, conectar a sensibilidade do pé direito ao som e à pressão que sentimos das nossas costas ao encontro do encosto do banco. Em carburados e mexidos, comando bravo, temos que embrear e levantar o giro para uma rotação em que sentimos/ouvimos/sabemos que o motor limpou e que a partir daquela rotação, se soltarmos adequadamente a embreagem, ele aceita que aceleremos rápido até no talo, que então ele aceita sem engasgos. 

Acelerar esses carros é uma técnica, portanto. Acelerar os carros modernos não exige técnica alguma. Basta mover o pé direito como bem quiser. Portanto, acelera essa coisa aí! Vamos! Acelera! Tá com medo de quê? 

A grande maioria dos motoristas não sabe acelerar nem os carros modernos. Não sabe ou tem medo, sei lá, ou os dois. Só sei que não aceleram. Não aceleram no talo. Parece que há um tabú, um forte receio, como se isso fosse uma loucura, sendo que é justamente o contrário. Loucura é dirigir e não saber dirigir.

Eu não piloto avião. Não sei, nunca aprendi, já voei muitas vezes em teco-tecos (apelido que o Bob odeia, mas eu não), já os segurei na reta e no plano, quase sem me mexer, só para sentir o avião na mão. Só sei rudimentos e aposto que deve ter algum chimpanzé treinado por aí que pilota avião melhor que eu, então não me meto a pilotar avião. Sou um cara razoável, não é não? 

Não sei pilotar avião, então não saio voando feito tonto por aí. Mas acontece que ao viajar nos feriados de final de ano a gente divide a estrada com muita gente que não é nada razoável, gente que não sabe dirigir e se mete na estrada porque algum instrutor irresponsável lhe carimbou a carteira de habilitação e isso é o suficiente para lhe dar a confiança necessária para carregar até os tampos o carro com a família e malas e cachorro poodle branco com lacinhos e sair estrada afora como se fosse a coisa mais segura do mundo. 

E lá vão os despreparados, uns coladinhos às traseiras dos outros. Com chuva, piorou. À noite, piorou. À noite e com chuva... desastre iminente. Haja anjo da guarda! Mamma mia! 

Eu, por exemplo, com estrada vazia, adoro viajar à noite, com chuva torrencial e tempestade de ventania. Folhas voando, rodemoinhos, o carro tomando lufadas laterais de vento que o chacoalham e depois dá aquela parada no vento, tipo vácuo, e o carro instantaneamente se estabiliza..., e depois vem outra lufada, bufff! Adoro, uai, acho legal. É só maneirar que tudo segue bem.

Mas tem gente, a maioria, que se apavora e faz besteira, mete o pé no freio sem olhar para trás, sai para o acostamento sem avisar, fica parado no acostamento sem ter ligado o pisca-alerta, ou vai devagar com o pisca-alerta ligado (quando que o pisca-alerta só deve ser ligado se o carro estiver parado, nunca em movimento). 

E faz esse monte de besteiras e mais outras inimagináveis besteiras, quando não teria nada que recear, caso soubessem dirigir. É como sempre digo: nunca menosprezem a burrice alheia. Esperem tudo e esperem também pelo impensável. Se me colocarem para pilotar um avião, por exemplo, se o piloto pular de pára-quedas e me deixar ali sozinho, e sem pára-quedas, sei que farei um monte de besteiras, sei que vou me apavorar e que as coisas estarão fora do meu controle, então não me meto a pilotar avião sem que um piloto não possa assumir imediatamente. 

Mas muita gente se mete a dirigir sem saber dirigir, e isso é um caldo de cultura para a criação de desgraças. E depois vem o governo com campanhas para que tenham cuidado nas estradas, a TV divulgando as estatísticas dos acidentes, acidentes com vítimas, com mortes, com famílias inteiras indo pro beleléu, filmagem de bonequinha estropiada na lama etc., essas coisas escabrosas e sanguinolentas dignas de estatísticas de guerra.

O governo, ou os governos, melhor dizendo, dando pinta de que não têm nada a ver com isso, dando pinta de que não é culpa dele que as estradas estão cheias de motoristas que não merecem o título, que não merecem ser considerados “habiltados”. 

Habilitados uma ova! Então vamos! Acelera aí! Motorista também tem que saber acelerar essa joça! Acelera, po...! Muitas vezes, para escaparmos de uma encrenca é preciso acelerar. Não é só saber frear, não. Frear, outra coisa que a maioria não sabe, saber que o carro freia muito mais do que acham que freia. Estou acostumado a me dizerem: “Puxa! Achei que não ia dar para frear para a curva!” Dá vontade de falar: “Claro que você achava que não ia dar. Claro! Você não sabe frear, uai! 

Nunca tentou, nunca testou seu carro, nunca se testou, nunca tentou melhorar, nunca tentou, dentro de ambientes seguros, conhecer os limites. Nunca se colocou numa situação de ter que controlar e alinhar algum desgarre na freada. Bancou o burro. Foi imprevidente. Foi irresponsável, pois está comandando uma máquina que pode ser muito perigosa se você não souber o que ela faz, como se comporta em situações de emergência. Em céu de brigadeiro, tudo bem, qualquer desmiolado toca a coisa, já que é só encaixar o carro na faixa que a coisa vai, mas quero ver na hora da encrenca.
Mas freada é outro assunto. O assunto agora é acelerar. Acelera aí, cacete! Anos atrás convenci minha mãe a trocar seu Santana câmbio manual por um carro automático. A idade foi chegando e ela guia pra cima e pra baixo, então achei mais conveniente o automático, cansa menos. Por eu ter estado na Argentina e visto muitos Peugeot 405 trabalhando de táxi e os caras falando maravilhas do carro, achei aqui um com 20 mil km, lindo, bordô, bom preço, guiei, gostei, e ela o comprou. Ela adorava o carro, mas achava que ele não “puxava” muito.

— Mas, como não puxa, mãe? Olha aqui! — e toca eu a acelerar no talo e o 405 andar pra burro. "Na estrada ele vai bem", dizia ela, "corre que eu nem percebo. Quando vou ver ele está a 140, mas na cidade a gente acelera e ele não vai."

O galho é que ela simplesmente não acelerava o suficiente. Ela é que não atolava o pé. Anos depois ela comprou, sem me consultar, “escondido”, um Citroën Xsara 2-litros, automático, que ela adorou, pois dizia que esse, sim, “puxava bem”. Entendi a coisa e o próximo foi um Ford Focus, 2-litros, automático, que tem um comando de acelerador eletrônico modulado para acelerar forte logo de cara. Esse, pra ela, “puxa muito bem”. 

Para mim, ele de cara puxa bem, mas depois não segue puxando como pintava que faria. Nada de mais, portanto. Parece cavalo Mangalarga que trotando sapateia todo fogoso, branco de suor, a boca babando pedindo rédeas, as ferraduras soltando faíscas, mas se você soltar as rédeas e cutucar suas costelas vem um galope meio pocotó desapontador, enquanto que o cabisbaixo punga peludo do peão já está levantando poeira lá adiante. 

Outro dia, num post sobre o Honda Civic, dei minha opinião dizendo que tinha absoluta certeza de que ele, assim como o Toyota Corolla, não precisava de um motor de 2 litros, e que o 1,8-litro dava e sobrava, e sobrava muito. Acontece que a característica do Civic é de motor virador, de potência em alta, que continua acelerando feliz numa faixa de giro em que a maioria dos outros motores já estão se esgoelando. Apesar dele ter comando de válvulas variável em fase e levantamento de válvulas que ajuda a lhe dar boa potência em baixa, seu comando de aceleração é mais progressivo, mais suave, o que acho correto, pois se gasta menos combustível e se a pessoa quiser que corra basta que acelere fundo que vem muita potência em giro alto. Está certíssimo. 

Mas não adianta, pois a maioria não vai fundo, a maioria tira o pé ou mete marcha mais alta antes da hora, e depois vem falando que o carro não anda. Tá bom que o Civic 1,8-l não anda, tá bom... Cento e quarenta cv é pouco para um carro com 1.280 kg. Só aqui mesmo. Para o resto do mundo basta e para o brasileiro não.

E carro com motor de 1-litro, então, minha nossa! A maioria diz que esses não andam nada. Então que me expliquem como é que na estrada volta e meia me passa um desses, seja de qual marca for, e passa babando a mais de 140 ou 150 km/h, principalmente carros de firma com emblema na porta, vendedor, assistência técnica, essas coisas, moçada no trampo que vive viajando e está louca para voltar para casa. Esses, ao menos, sabem acelerar. Que nem motoboy, esses, ninguém há de negar, sabem acelerar suas 125. Já frear é outra história, pois só freiam com o pé, só o freio traseiro, o menos eficiente, e vão escorregando até se esborracharem.

Portanto, finalizando, estou acostumado, acostumadíssimo, a mandar alguém dirigir e lhe pedir para que acelere fundo e agüente a mão. A maioria não acelera, não sabe acelerar. Por isso insisto quando estou com minhas filhas dirigindo. Na maioria das vezes as coloco para guiar e vou ao lado. Em locais propícios, seguros, em marchas baixas, 1ª, 2ª, 3ª, peço que se acostumem a acelerar. Mando que atolem o pé até o talo, mando que esperem com o pé ali, no talo, mando que suportem a tentação de trocar de marcha, coloco minha mão sobre a alavanca de câmbio, impedindo-as de ceder à tentação, e digo que o carro não vai explodir, que não acontece nada com o motor e até lhe faz bem. 

Mas ainda não estou satisfeito. Isso demora a acostumar. Sendo assim, só posso aconselhar. Escolha um lugar próprio, seguro, vazio, e ensine a acelerar. Pé no talo e agüente a mão. Demora a aprender, mas faz parte da educação ao volante, é uma das coisas a se saber fazer. Faz parte da máxima segurança.

Aliás, é por isso que em qualquer avião, até nos teco-tecos (desculpe, Bob!), na corrida para decolagem o acelerador é levado ao talo. Em todos que voei vi a mesma coisa, talo na decolagem.

Acelera aí, caramba! Deixe o motor mostrar toda a sua força. Conheça-o.

Arnaldo Keller"

Post scriptum: Procurem a série de posts do Arnaldo sobre um Jaguar que ele teve quando era moleque. História deliciosa.