sexta-feira, 20 de junho de 2014

Getting up!

Não tem grade! E agora?

Antes que alguém pense num outro substituto para o fusca, melhor deixar claro que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. A VW do Brasil precisava de outro carro para ocupar o lugar deixado pelo arcaico Gol G4 (se bem que não concordo com essa classificação em 5 gerações. São só três mas esse é outro assunto) e apresentou o up! para ocupar o cargo e fez muito bem porque o carro é ótimo, como veremos a seguir.

O up! tem desenho bem diferentão do que se vê hoje na sua categoria. Em vez de esguio  e cheio de paineis de refração de luz (designers gostam bastante de fazer isso, hoje), um caixotinho que nem grade dianteira para captação de ar para o radiador tem. Há quem goste e há quem odeie. Em branco não passa. Mas esse desenho "caixótico" propicia uma interessante combinação de bom espaço interno, desde que não se queira transportar cinco jogadores de rugby com toda sua bagagem, e pouca necessidade de espaço pra se esgueirar no trânsito e em estacionamentos apertados. Trata-se, afinal, de um carro que ocupa no espaço mais ou menos o mesmo tanto que um Ford Ka.

O revestimento dos bancos segura mais o corpo 
em curva do que o formato sugere.

Tem uma tampa no fundo do porta-malas que pode mudar de posição. 
É legal pra esconder a câmera fotográfica, a jaqueta e
 o walkman. Se é que alguém ainda usa walkman...

Muito confortável, acomoda muito bem seus ocupantes. O cockpit, se não maravilhoso como o de um BMW ou Porsche (quaisquer modelos), é bom o suficiente pra garantir bastante diversão em trechos sinuosos de serra onde é necessário total entrosamento entre o motorista/piloto e o carro. Pequenos detalhes requerem alguns quilometros rodados para serem assimilados pelo motorista. O volante de boa pega e diâmetro é levemente deslocado para a esquerda. Quem tem TOC vai sofrer. E o pedal do acelerador não está perto o suficiente ao pedal do freio para permitir um punta-taco confortável. Mas convive-se com isso. Existe um ressalto no assoalho do lado esquerdo que pode e deve ser usado como quarto pedal. Os bancos acolhem bem, com dureza da espuma na medida certa.

O ride do up! é Volkswagen, sem dúvida. Os fãs da marca se sentem em casa. A suspensão tem calibragem mais dura, quase não permitindo movimentos de roll e pitch, e não permitindo nada de yaw. Apesar desse acerto com mote esportivo, os comandos são bastante leves. A direção tem assistência elétrica e é de acionamento tão leve quanto o da excelente caixa de marchas. Recentemente quebrei uma vertebra da coluna, o osso esterno e rompi todos os ligamentos do ombro direito. Mesmo assim debilitado me senti muito à vontade no cockpit do up! O carro, como já se pode supor, é muito estavel, muito preciso na inserção em curva e não apresenta movimentos que não sejam os esperados pelo condutor. Muito bom.

Até aqui tem-se a impressão de ser o up! um carro esportivo. Não é, claro, mas se comporta impecavelmente. O modelo que experimentei, o White up!, vem com pneus 185/60R15 montados em parrudas rodas de alumínio. Para o meu gosto, um exagero. O carro se comporta sempre como se estivesse sobre trilhos e sugere, pra quem tem algum refinamento ao volante, que seja conduzido suavemente.

Ótimo, o motor de três cilindros. Pra quem gosta de moto, difícil de acreditar que não é um bom e velho Suzuki ou Kawasaki ou mesmo um moderno Triumph. Muito bom o power train todo, aliás. Só o barulho de Formula 1 em escala reduzida distoa do conjunto porque a gente espera ouvir os velhos MD-270, AE ou AP. Ou mesmo os EA. Mas acaba combinando, no final. O câmbio tem escalonamento que casa perfeitamente com o power range disponível, estando o carro vazio ou com meia carga. Não o experimentei com carga máxima e isso não vem ao caso. Quem quer andar com carro carregado e compra um 1.0 não tá fazendo a coisa certa, afinal.

O barulho dos motores de 3 cilindros e seus múltiplos é bem mais legal, acho, do que o dos de 4 e seus múltiplos. Subliminarmente apresentam uma vantagem. Vejam só: muitos donos de carros de 1.000 cc não os aceleram muito acima de 3.000 rpm por medo de "explodirem" o motor e porque eles "berram" muito. Gente que gosta de carros e motos sabe que isso é uma besteira sem tamanho. Ainda fico espantado ao constatar que tem gente desinformada a ponto de pensar assim. Sabemos que não existe o menor problema de andar com os carrinhos de 1.000 cc "berrando" felizes mas com o ponteiro do contagiros fora da faixa vermelha. Mas os motores de 3 cilindros não berram (chega de aspas). Mais do que isso, seu barulho é bastante agradável de 3.000 rpm pra cima, sendo que senti bastante torque no up! entre 3 e 4.500 rpm. O barulho é bastante parecido com o de um Formula 1, como já disse, desses de agora, V6 turbo. Bastante agradável, por sinal. O motor é liso apesar de apresentar uma leve vibração em marcha lenta. O corte de giro é limpo (não faz tá tá tá tá tá) e pode pegar algum incauto de surpresa numa ultrapassagem crítica. O motor simplesmente para de subir de giro a 6.500 rpm. Um não iniciado amedrontado pode não perceber que o motor já parou de continuar subindo de giro.

O DNA indiscutivelmente é Volkswagen. O carro é pregado no chão e lida com qualquer adversidade que se lhe imponha com muita, mas muita galhardia. Tolera excessos, maus tratos e cretinices propositais numa boa. A calibragem da suspensão é, para quem gosta do DNA VW, primorosa. Tá certo que os 75 hp (com gasolina. Com álcool são 82 hp) não são suficientes pra provocar perda de aderência das rodas motrizes mas dá pra sentir que a geometria foi bem pensada e toleraria um upgrade de potência facilmente.

O escalonamento do câmbio foge, ainda bem, do remédio aplicado pela maioria dos fabricantes aos pequenos motores de 1.000 cc que são obrigados a puxar (empurrariam, se fossem de tração traseira) versões "completinhas". O alcance das marchas é similar ao de carros com motores com mais capacidade cúbica, ainda bem. Mas o up! não é para preguiçosos. Tem que mudar de marcha o tempo todo pra manter o motor dentro da faixa útil de giro. Não considero isso como problema, uma vez que meu velho carro tem motor com quase o dobro de torque mas contido numa faixa estreita de rpm, me obrigando a mudar de marcha o tempo todo. O up! muito me lembrou dos meus antigos Passat com motor de 1.500 cc, só que é bem mais estável, tem freios muito melhores e é bem mais silencioso.

Os fabricantes tradicionais inventaram os carros de 1.000 cc pra aproveitar uma brecha arrecadatória cavada pelo engº João Augusto Amaral Gurgel. Dentro do pacote da idéia estava a economia, tanto do valor dos carros como do seu custo operacional, incluindo consumo de combustível. Sabe-se, hoje, que vários 1.0 (prefiro 1.000 cc) bebem mais combustível que suas versões equipadas com motores de maior capacidade. Não é o caso do up! primeiro porque ele não tem versão com motor maior e segundo porque é econômico mesmo. Na ficha de teste específica do modelo que experimentei (um White up!) tinha consumos acima de 17 km/l anotados. Comigo, sem a menor preocupação de poupar combustível, andando 95% do tempo em estradas livres e com uma subida de serra que eu deveria ter filmado, o up! fez 12,8 km/l, o que considerei muito bom.

Esse 1.000 cc eu comprava fácil.

O mercado pede GPS e central de entretenimento. Então toma!
 A do up! pelo menos pode ser retirada e guardada no porta-luvas.



N. do A. 1: Eu comprava fácil se tivesse mais uns 20 hp e uns 3 kgf/m.
N. do A. 2: Era pra ter intertítulos divertidinhos tais como Move up! pra falar do powertrain, Get up! pra falar do interior, Pin up! pra falar do design mas no fim acabei desistindo.
N. do A. 3: O circuito usado para o teste deve ter a maior quantidade de lombadas reunidas na mesma rota da face da Terra. Daí o consumo relativamente alto desde e de outros carros.
N. do A. 4: Já expliquei o que é roll, pitch e yaw aqui.