segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Treinos e histórias


Segunda-feira que segue domingo de corrida é um dia legal pra ir pra Interlagos. Eu costumava ir quando tinha aula na pista às segundas-feiras.

Nessa época tinha curso de fórmula e eu e mais um cara eramos os instrutores desse tipo de carro.

Os carros não eram da escola mas sim de um preparador que os cedia e, não por coincidência, era o preparador da maior parte dos carros da categoria. Eram carros da Fórmula São Paulo, nos seus primórdios.

Todos evoluídos do buguinho fabricado pela Glaspac (agora conhecidos como Formula Alpie), que correram na F Ford na década de 80.

Esses carros tinham side pod e assoalho de madeira, tornando-os algo diferentes dos buguinhos originais.
Usavamos os próprios carros de corrida nas aulas. Tanto os instrutores como os alunos. Fiz bastante "hora de voo" neles e tinha a mão pra guiá-los.

Tanto que era chamado de vez em quando pra fazer algum teste de desenvolvimento de peças, componentes ou acerto novos.

Numa segunda-feira tava eu de bobeira nos boxes depois da aula regular na pista, quando fui chamado pelo preparador dos carros pra passar um carburador novo, preparado pelo Dragão, e que equipara um F Ford da década de 80 (estávamos na década de 90).

Esse carburador tava montado no F SP que tinha ganho a corrida no dia anterior.

Só que o preparador me pegou desprevinido. Não tinha levado minha tralha pra pista. Mas como sempre é bom sentar a bunda num carro de corridas, me mexí pra descolar capacete, macacão, luvas e sapatilhas emprestados.

"Cê revisou o carro hoje? Ontem ele deu quantas voltas?" perguntei eu, prudentemente.

"Senta aí que tá tudo certo." disse o preparador.

Então tá, né?

Motor ligado, aquecido, vamos pra pista.

Eu, que não sou bobo, dei duas voltas acima do limite pra ter certeza de que tava tudo certo.

Parei pra reclamar da imprecisão do carro na hora de inserí-lo em curva e da enorme falta de torque em giros úteis (no motor daquele carro, um CHT preparado, a faixa útil ficava entre 4.500 e 7.200 rpm).

O preparador ficou meio puto, disse que tava tudo certo e que era pra não usar a quarta marcha, então. Que esticasse a segunda e a terceira até aparecer o torque. Era JUSTAMENTE pra fazer isso que o carro tava na pista e eu guiando.

Então tá, né?

Pista outra vez.

Agora, sem dó nem piedade. Reta oposta inteira feita em terceira. O motor só "acordava" acima de 6.000 rpm.

Como era o carro que tinha ganho a corrida no dia anterior e a gente sabia quanto ele tinha virado, o objetivo era tentar virar mais rápido, o que não era pouca merda porque o dono do carro era bom.

Foi então que a entrada da curva do Lago chegou mais uma vez. Devia ser a quarta ou quinta volta desde que mandaram socar o pé. Terminei a freada e apontei o carro. A traseira flutuou e abortei o procedimento: aliviei mínimamente o pé direito (tirar duma vez é pedir pra rodar) e contra estercei um pouquinho. A traseira firmou, tinha a zebra toda ainda pra alargar a trajetória e reacelerei. Imediatamente a traseira flutuou outra vez.

Aí não teve jeito. O carro entrou de ré na área de escape entre Lago 1 e Lago 2. Naquela época era brita e não asfalto. Aterrisei de ré, a traseira enterrou na brita, a frente subiu, o carro girou no seu eixo longitudinal com as rodas no ar e finalmente caiu com o assoalho inteiro apoiado na brita.

Desliguei a chave geral e esperei a poeira baixar. Tinha brita dentro do cockpit até a altura da minha cintura.

Fui jogando brita fora enquanto o resgate não chegava.

Não preciso dizer que empastelei o macacão, a sapatilha, a luva e o capacete emprestados...

Descí pra ver o estrago: assoalho partido em 3 partes, cano de escape amassado e... nada mais.

O resgate me rebocou pro box.

Chegando lá, várias pessoas de cara feia incluindo o dono do carro olhavam na minha direção. O vôo deve ter sido um show (de horror). Quando tem pouco carro na pista todo mundo fica na cerca do paddock. E nessa hora só eu tava andando...

Abstraímos todos o estado lamentável em que o carro estava e fomos conversar sobre o carburador preparado pelo Dragão.

Relatei minhas impressões, dizendo que não tinha torque nenhum abaixo de 5.000 rpm e que não dava pra andar com ele. Eu achei que tinha veturis grandes demais.

Apenas minha opinião.

Estimei que o carro não viraria abaixo de 1' 54" com aquele carburador e iniciou-se discussão a respeito. O dono do carro recuperou os dados do PI (espécie de computador de bordo que acumula dados de vários sensores instalados e também os tempos de três parciais da pista). Somados os tempos das melhores parciais veio o 1' 54" (a melhor volta tinha sido 1' 54" 9).

Finda a discussão sobre a carburação, procurei saber porque é que a traseira tinha escapado tão bruscamente por duas vezes (a segunda, incontrolável). Balançando todas as rodas ví que os pivôs da suspensão traseira direita estavam soltos, fazendo variar a cambagem dessa roda em mais de 3 graus. Tavam explicados o vôo e a aterissagem de mau jeito.