terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Como matar um primo

Fuçando nas minhas gavetas acabei achando os cromos de uma das primeiras corridas que fiz na categoria Aspirantes.

Algum tempo depois de ter terminado o curso de pilotagem lí num jornal (Jornal da Tarde, provavelmente, que era o único que veiculava matérias sobre automobilismo constantemente) que o Expedito ia promover provas para alunos e ex-alunos do curso que ainda não tivessem participado de corridas.

Tô nessa, claro!


Fiz algumas corridas com um Gol LS 1.6 1983 que eu tinha, daqueles ainda com motor VW a ar. Andava bem mas faltava uma coisa: mais HPs.

Por causa disso de vez em quando roubava o carro da minha mãe, um Escort L 1984.

Este aqui:


Esse foi o primeiro roubo que fiz do carro. Uma desculpa qualquer, álcool no tanque e a ótima lazagna de domingo era facilmente deixada de lado.

O grid não era estonteantemente grande, mas entre 12 e 20 aspirantes a piloto sempre marcavam ponto nas corridas. Era sempre a última escalada para o domingo. E ficava gente pra ver! Afinal corriam carrões da época e a chance de vê-los se estabacando era sempre grande.

Panis et circencis.

O circensis a gente garantia pra quem assistia.

Maior ainda era a diversão pra quem participava, for sure. Era muito legal andar com os pneus radiais da época (esse Escort usava pneus 165/80R13 - altos, estreitos e flexíveis) com 40 ou mais libras. Podia fazer sol ou chover que o grip era praticamente o mesmo, ou seja, quase nenhum.

A Ford sempre primou pelo acerto das suspensões voltado para conforto e não para desempenho. A combinação de uma suspensão bem macia com um motor que tinha torque suficiente para o peso do carro e mais a boa penetração aerodinâmica dessa carroceria porporcionava muita diversão.

Era extremamente legal andar escorregando em qualquer curva.

Se o baricentro do carro estiver no traçado, o resto que se f...

Eu arrancava risadas do Expedito com essa frase. E era isso mesmo! Não tinha como fazer a longa curva do Sol numa virada só do volante, como ele nos ensinava. Ora a frente escapava, ora a traseira queria sair. Mas eu deixava o centro de massa do carro rigorosamente no traçado certo, embarrigando no meio e não tocando a zebra interna na tangência da segunda perna como tinha que ser.

Alá que legal a largada. Na pole, o Leo e seu TS preto lindo de morrer. Atrás da gente dois Gol GT. Podia andar qualquer carro de rua com motor de até 1800 cc. Mas pra alguns, 1600 cc tava de ótimo tamanho:


Aqui a gente tá fazendo a Ferradura na primeira volta. Na minha frente um Gol GT e um Passat TS. Atrás, um fusca. Não lembro desse fusca mas não durou muito tempo perto da gente:


Não precisava de macacão. Só no ano seguinte é que nos obrigaram a usar o gear completo. Bermuda não podia, o que eu lamentava muito, porque tava sempre quente dentro do carro com os vidros fechados e ventilação desligada. Mas bastava a vontade de acelerar, só. Esse capacete aí foi pintado pelo Sid Mosca, que ainda não era tão famoso. O desenho é meu mesmo. Infelizmente foi inutilizado num acidente de moto. 

Quase que eu fui inutilizado também.


Essa corrida foi bem legal porque eu e o Leo (o cara do Passat TS preto lindo) conseguimos despachar os Gol GT logo de cara e pudemos trocar de posição várias vezes sem a preocupação de perder os dois primeiros lugares pra algum outsider.

Alá como foi:


Depois de algumas experiências com o Gol LS, que era ótimo de chão mas o motor "acabava" logo na saída da curva 2 e descia os 800 metros do retão sem crescer uma única rpm que fosse se não pegasse o vácuo de alguém, fiquei maravilhado com a velocidade que o Escort alcançava no fim do retão. Passava um pouco dos 180 km/h em quinta marcha, contra 145 km/h do Gol. Só que essa era a única vantagem que ele tinha em relação ao Passat TS preto (lindo, do Leo) e ao meu valente LS branco. As freadas eram críticas e o contorno de curva não era como o do Passat, bem mais fácil de pilotar.


Ora o Leo ia na frente, ora eu. A grande vantagem do TS preto era a entrada da 3. Ele tinha só quatro marchas e o Leo não precisava reduzir. Bastava frear. Eu, com o não muito preciso câmbio de 5 marchas do Escort (opcional, à época), tinha que me preocupar em acertar o engate da quarta marcha enquanto freava forte segurando o volante com uma mão só e tentando deixar o carro em linha reta. Os GrandPrix S eram péssimos em freada, principalmente. Lá o Leo abria um pouco de mim ou tirava a pífia vantagem que eu conseguia no retão graças à 5ª marcha que eu tinha e ele não e graças à boa aerodinâmica do Escort.

Até que na última volta, na freada do S (na pista de oito quilometros não tinha S do Senna. Só o de verdade)...


...tentei passar o Leo por fora mesmo. Não tinha muito problema fazer isso porque a próxima curva, o Pinheirinho, é pro lado contrário e eu estaria por dentro. Só que essa freada teria que ser feita no limite extremo da aderência dos horríveis GoodYear Grand Prix S 165/80R13. E o Leo me "ajudou" a pisar com duas rodas na grama durante a freada.

Deu no que deu. 

Quase matei o Tite, meu primo, que fez essas fotos. Nesse momento ele tava na entrada do S, na beira da pista. Durante a cagada freada olho pra frente e vejo o cara com a cam apontada pra mim. De um lado do rosto, a Pentax chiquérrima que ele tinha. Do outro, um ovo frito enorme.

He he he...

Todos sobreviveram sem maiores danos (o Tite, a Pentax, o Escort da minha mãe e eu).


No pódio, o Leo em primeiro, eu em segundo e os donos dos Gol GT (com cara de bunda) em 3° e 4°. Nessa época eu tinha pouco cabelo e nenhuma barriga. 

Infelizmente a situação se inverteu. 

Nessa época eu ainda não tinha a fama injusta que tenho hoje.

O troféu é esse aqui:


Minha mãe, filha do meu avô que gostava muito de carros, motos, oficinas mecânicas e de mim, sempre sabia o que tinha acontecido com o Escort dela no domingo por maior que fosse a mentira deslavada (mas sempre criativa) que eu desse. Os pneus arrepiados denunciavam a sarrafada tomada na pista.